Olá, leitores. Hoje, é o dia em que a realidade imita a ficção!

Confira todos os post anteriores: Clique Aqui!

Cidadãos presos em suas casas, medo pairando no ar, tensão, pavor, pessoas morrendo nas ruas, insegurança, seres humanos desesperados para comprar mantimentos nos mercados, governo ríspido, orgulhoso e desesperado sem saber o que fazer, mas que, em momento algum, dá o braço a torcer. Todo esse “plot” é muito bem usado pelo nobilíssimo José Saramago em seu livro, que resenhamos recentemente, chamado “O Ensaio Sobre a Cegueira”. O fato é que a realidade resolveu imitar a ficção. Sobre o que estou falando?

Para começar a desenvolver meu raciocínio, assista esse pequeno vídeo:

Pois bem, é de conhecimento nacional, mesmo que de forma um pouco superficial, que o meu estado, o Espírito Santo, passa por um momento delicadíssimo, quiçá, o mais tenso que já passamos. A suposta “greve” dos policiais militares, que completa uma semana, trouxe à baila todo chorume fétido do instinto humano. Lojas sendo saqueadas, quase 100 mortes, comércio com prejuízo milionário e nós, os trabalhadores, trancafiados em nossas casas apavorados, receosos e com medo de sair às ruas.

A grande verdade do livro é que a cegueira é apenas uma metáfora assustadora para nos mostrar que nós, na verdade, já estamos cegos. Tanto na ficção de Saramago quanto na nossa realidade há algo consonante: Um sistema de governo fragilizado. Nada destoa, sem dúvida, a velocidade com que os fatos acontecem e como nosso modo de vida tradicional esmorece, soçobra e é solapado pelos acontecimentos é estarrecedor. Essa situação nada mais é que um compêndio de fatos que culminaram nessa paralisação dos policias e teve o condão de mudar as nossas vidas em apenas uma semana.

Sendo assim, portanto, qual seria a nossa cegueira?

A cegueira é, praticamente, total. Vamos tentar discorrer um pouco sobre essa situação calamitosa em que estamos sem perder a nossa sanidade. E para tal, precisamos colocar os fatos em cheque.

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.

Segundo a pesquisa do Dieese, para que todos os direitos do cidadão elencados no Art. 6 da nossa carta magna fossem salvaguardados o salário mínimo necessário deveria ser de R$ 3.811,29 e não os vergonhosos R$ 937,00 ( Link da matéria )

Todo trabalhador já é prejudicado com os salários defasados e insuficientes para tentar sobreviver. No entanto, vamos falar do setor público. O reajuste salarial, quando há, sempre é abaixo da inflação e pífio frente aos demais serviços e produtos que sofrem o aumento anual. O poder de compra do servidor público está cada vez menor e o sonho de estabilidade no funcionalismo público já não é mais a utopia a ser conquistada.

Tenho a plena ciência da importância do policial militar, que está sem reajuste salarial, que dá a vida todos os dias pela nossa segurança, que trabalha em condições precárias, com viaturas sucateadas, que são mal treinados, com direitos humanos que os diminuem e os deixam, muita das vezes, incapacitados e que precisamos dar uma atenção maior à categoria, tudo isso, eu realmente compreendo. Vou além, eles deveriam ter o direito de protestar e lutar pelos seus direitos. Mas sabe por que não podem? Desde Thomas Hobbes e a sua obra, O Leviatã, que o maior valor da humanidade é a segurança, nós trocamos nossa liberdade pela segurança, o governo a comprou, é por isso que nós temos regras, temos proibições, deveres, pagamos impostos e devemos, ao máximo, demonstrar sisudez, ponderação e evitar a animosidade entre nós.

Por outro lado nós temos o Estado. Estado este que colocou um limiar na nossa liberdade em troca de nos dar segurança, entretanto, peca, indubitavelmente, todos os dias em fazê-lo. E quando é posto e uma situação como esta se revela um verdadeiro Estado que trata todos nós como meros proletariados e administra o Espírito Santo como um feudo. Mostra-se rijo e não cede de forma alguma, nada de negociação, acordo ou uma solução nítida. Ouço um questionamento chegando: e a Força Nacional e o Exército nas ruas? Pois bem, que estão ajudando, não posso negar. No entanto, além de ser um quantitativo insuficiente para um estado de quase 50 mil quilômetros e possui um populacional que beira os 4 milhões de habitantes, todos os custos das tropas, que são altíssimos, serão custeados pelo NOSSO estado e com o NOSSO dinheiro.

Sabe qual é o pior de tudo? Quem sofre somos nós, os cidadãos!

É o cidadão de bem que está uma semana sem trabalhar, é o cidadão de bem que está com medo de ir ao mercado fazer a compra dos seus mantimentos e quando vai é um caos, é o cidadão de bem que reflete o medo em seus olhos, é o cidadão de bem que sofre e chora por se sentir incapaz, é o cidadão de bem que acorda todos os dias sem norte, é o cidadão de bem que tem seu comércio destruído, enfim, é o cidadão de bem que sempre perde. Esse, infelizmente, é o panorama que o Espírito Santo está. Por mais que acho justo o policial reivindicar os seus direitos, os meios utilizados para alcançar o fim almejado produz sofrimento, o bem de todos deveria ser superior ao bem individual. Maquiavel deve estar revirando de alegria no seu túmulo nesse instante, pois o seu Príncipe continua mais vívido do que nunca. Ao cabo, ainda tenho esperança de que esse exemplo ruim do nosso sistema fragilizado sirva de exemplo e que essa crise não se torne em uma guerra civil. Mas ainda me resta uma dúvida: No livro as pessoas voltam a enxergar e tentam tocar a sua vida normalmente, sendo assim, portanto, será que nós deixaremos de ser cegos um dia?

Gostou do conteúdo?

Comente, será um imenso prazer conversar com você!

Quer que mais pessoas saibam do assunto? Compartilhe, pois me ajudará muito!

Quer me indicar livros, elogiar, sugerir ou criticar? Envie um e-mail para contato@vidaliteraria.net

Siga-me também nas redes sociais para ficar por dentro das novidades.