Olá, leitores!

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A inércia literária é algo terrível. A morosidade nos invade, a preguiça consome e parecemos carcomidos pelo desânimo. Quem nunca passou por isso? A leitura, assim como praticamente todas as nossas atividades, são hábitos que acabamos adquirindo ao transcorrer da vida. No entanto, mesmo aqueles que procuram livros como os diabéticos procuram por glicose possuem seus dias em que a leitura parece impensável para a rotina diária. Infelizmente, esses dias podem ser apenas amenizados, mas nunca serão extirpados, acredite. Se você ainda não foi atingido por esses dias, eles virão!

“Livros não mudam o mundo, livros mudam pessoas, pessoas mudam o mundo”.

Conheço inúmeras pessoas que dizem que querem ler mais, que gostam de ler mas não tem tempo e constroem “desculpas” que tendem ao infinito. Pois bem, há tipos de leitura que podem te ajudar a sair dessa inércia perscrutada e fazer com que a leitura passe a ser algo habitual. Duas são as minhas preferidas: Poemas e Contos.


“Viver sem ler seria como viver sem viver”.

Por que esses tipos de literatura podem te tirar da preguiça?

Vejamos este poema de Carlos Drummond de Andrade:

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Demorou quanto tempo pra ler este poema? 1 minuto? sentiu a profundidade? Pois é, tenho a nítida impressão de que os poemas e poesias devem ser apreciadas dessa forma, uma ou duas por dia, para que possamos refletir e reverberar sobre os assuntos abordados. Meu fascínio por este estilo é imenso. Quanta síntese! Quanta Imensidão! Falando muito com pouco. Sério, não há desculpa para não ler poemas.

E os contos?

Vejamos este conto da incrível Clarice Lispector:

A fuga

Começou a ficar escuro e ela teve medo. A chuva caía sem tréguas e calçadas brilhavam úmidas à luz das lâmpadas. Passavam pessoas de guarda-chuva, impermeável, muito apressadas, os rostos cansados. Os Automóveis deslizavam pelo asfalto molhado e uma ou outra buzina tocava maciamente.
Quis sentar-se num banco do jardim, porque na verdade não sentia a chuva e não se importava com o frio. Só mesmo um pouco de medo, porque ainda não resolvera o caminho a tomar. O banco seria um ponto de repouso. Mas os transeuntes olhavam-na com estranheza e ela prosseguia na marcha.
Estava cansada. Pensava sempre: “Mas que é que vai acontecer agora?” Se ficar andando. Não era solução. Voltar para casa? Não. Receava que alguma força a empurrasse para o ponto de partida. Tonta como estava, fechou os olhos e imaginou um grande turbilhão saindo do “Lar Elvira” aspirando-a violentamente e recolocando-a junto da janela, o livro na mão, recompondo a cena diária. Assustou-se. Esperou um momento em que ninguém passava para dizer com toda a força: “Você não voltará” Apaziguou-se.
Agora que decidira ir embora tudo renascia. Se não estivesse tão confusa, gostaria infinitamente do que pensara ao ao cabo de duas horas: “Bem, as coisas ainda existem”. Sim, simplesmente extraordinária a descoberta. Há doze anos era casada e três horas de liberdade restituíam-na quase inteira a si mesma: – primeira coisa a fazer era verse as coisas ainda existiam. Se apresentasse num palco essa mesma tragédia, se apalparia, beliscaria para saber-se desperta. O que tinha menos vontade de fazer, porém, era de representar.
Não havia, porém, somente alegria e alívio dentro dela. Também um pouco de medo e doze anos.
Atravessou o passeio e encontrou-se à murada, para olhar o mar. A chuva continuava. Ela tomara o ônibus na Tijuca e soltara na Glória. Já andara para além do Moro da Viúva.
O mar revolvia-se forte e, quando as ondas quebravam junto às pedras, a espuma salgada salpicava-a toda. Ficou um momento pensando se aquele trecho seria fundo, porque tornava-se impossível adivinhar: as águas escuras, sombrias, tanto poderiam estar a centímetros da areia quanto esconder o infinito. Resolveu tentar de novo aquela brincadeira, agora que estava livre. Bastava olhar demoradamente para dentro d’água e pensar que aquele mundo n]ao tinha fim. Era como se estivesse se afogando e nunca encontrasse o fundo do mar com os pés. Uma angústia pesada. Mas pro que a procurava então?
A história de não encontrar o fundo do mar era antiga, vinha desde pequena. No capítulo da força da gravidade, ma escola primária, inventara um homem com uma doença engraçada. Com ele a força da gravidade não pegava… Então ele caía para fora da terra, e ficava caindo sempre, porque ela não sabia lhe dar destino. Caía onde? Depois resolvia: continuava caindo, caindo e se acostumava, chegava a comer caindo, dormir caindo, viver caindo, até morrer. E continuaria caindo? Mas nesse momento a recordação do homem não a angustiava e, pelo contrário, trazia-lhe um sabor de liberdade há doze anos não sentido. Porque seu marido tinha uma propriedade singular. bastava sua presença para que os menores movimentos de seu pensamento ficassem tolhidos. A principio, isso lhe trouxera certa tranquilidade, pois costumava-se cansar-se pensando em coisas inúteis, apesar de divertidas.
Agora a chuva parou. Só está frio e muito bom. Não voltarei para casa. Ah, isso é infinitamente consolador. Ele ficará surpreso? Sim, doze anos pesam como quilos de chumbo. Os dias se derretem, fundem-se e formam um só bloco, uma grande âncora. E a pessoa está perdida. Seu olhar adquire um jeito de poço fundo. Água escura e silenciosa. Seus gestos tornam-se brancos e ela só tem um medo na vida: que alguma coisa venha transformá-la. Vive atrás de uma janela, olhando pelos vidros a estação das chuvas cobrir o sol, depois tornar o verão e ainda as chuvas de novo. Os desejos são fantasmas que diluem mal se acende a lâmpada do bom senso. Por que é que os maridos são o bom senso? O seu é particularmente sólido, bom e nunca erra. Das pessoas que só usam uma marca de lápis e dizem de cor o que está escrito na sola dos sapatos. Você pode perguntar-lhe sem receio qual o horário dos trens, o jornal de maior circulação e mesmo em que região do globo os macacos se reproduzem com maior rapidez.
Ela ri. Agora pode rir… Eu comia caindo, dormia caindo, vivia caindo. Vou procurar um lugar onde pôr os pés…
Achou tão engraçado esse pensamento que se inclinou sobre o muro e pôs-se a rir. Um homem gordo parou a certa distância, olhando-a. Que é que eu faço? Talvez chegar perto e dizer: “Meu filho, está chovendo”. Não. “Meu filho, eu era uma mulher casada e sou agora uma mulher”. Pôs-se a caminhar e esqueceu o homem gordo.
Abre a boca e sente o ar fresco inundá-la. Por que esperou tanto tempo por essa renovação? Só hoje, depois de doze séculos. Saíra do chuveiro frio, vestira uma roupa leve, apanhara um livro. Mas hoje era diferente de todas as tardes dos dias de todos os anos. Fazia calor e ela sufocava. Abriu todas as janelas e as portas. Mas não: o ar ali estava, imóvel, sério, pesado. Nenhuma viração e o céu baixo, as nuvens escuras, densas.
Como foi que aquilo aconteceu? A principio apenas o mal-estar e o calor. Depois qualquer coisa dentro dela começou a crescer. De repente, em movimentos pesados, minuciosos, puxou a roupa do corpo, estraçalhou-a, rasgou-a em longas tiras. O ar fechava-se em torno dela, apertava-a. Então um forte estrondo abalou a casa. Quase ao mesmo tempo, caíam grossos pintos d-água, mornos e espaçados.
Ficou imóvel no meio do quarto, ofegante. A chuva aumentava. Ouvia seu tamborilar no zinco do quintal e o grito da criada recolhendo a roupa. Agora era com um dilúvio. Um vento fresco circulava pela casa, alisava seu rosto quente. Ficou mais calma, então. Vestiu-se, juntou todo o dinheiro que havia em casa e foi embora.
Agora está com fome. Há doze anos não se sente fome. Entrará num restaurante. O pão é fresco, a sopa é quente. Pedirá um café, um café cheiroso e forte. Ah, como tudo é lindo e tem encanto. O quarto do hotel tem um ar estrangeiro, o travesseiro é macio, perfumada a roupa limpa. E quando o escuro dominar o aposento, uma lua enorme surgirá, depois dessa chuva, uma lua fresca e serena. E ela dormirá coberta de luar…
Amanhecerá. Terá a manhã livre para comprar o necessário para viagem, porque o navio parte às duas horas da tarde. O mar está quieto, quase sem ondas. O céu de um azul violento, gritante. O navio se afasta rapidamente… E em breve o silêncio. As águas cantam no casco, com suavidade, cadência… Em torno, as gaivotas esvoaçam, brancas espumas fugidas do mar. Sim, tudo isso!

Mas ela não tem suficiente dinheiro para viajar. As passagens são tão caras. E toda quela chuva que apanhou, deixou-lhe um frio agudo por dentro. Bem que pode ir a um hotel. Isso é verdade. Mas os hotéis do Rio não são próprios para uma senhora desacompanhada, salvo os de primeira classe. E nestes pode talvez encontrar algum conhecido do marido, o que certamente lhe prejudicará os negócios.
Oh, tudo isso é mentira. Qual a verdade? Doze anos pesam como quilos de chumbo e os dias se fecham em torno do corpo da gente e apertam cada vez mais. Volto para casa. Não posso ter raiva de mim, porque estou cansada. E mesmo tudo está acontecendo, eu nada estou provocando. São doze anos.
Entra em casa. É tarde e seu marido está lendo na cama. Diz-lhe que rosinha esteve doente. Não recebeu seu recado avisando que só voltaria de noite? Não, diz ele.
Toma um copo de leite quente porque não tem fome. Veste um pijama de flanela azul, de pintinhas brancas, muito macio mesmo. Pede ao marido que apague a luz. Ele beija-a no rosto e diz que o acorde às sete horas em ponto. Ela promete, ele torce o comutador.
Dentre as árvores, sobe um luz grande e pura.
Fica de olhos abertos durante algum tempo. Depois enxuga as lágrimas com o lençol, fecha os olhos e ajeita-se na cama. Sente o luar cobri-la vagarosamente.
Dentro do silêncio da noite, o navio se afasta cada vez mais.

Em poucas páginas e palavras Clarice é capaz de nos fazer pensar sobre tantos assuntos. Casamento infeliz? Subordinação ao marido? Desejo de liberdade? A triste “dependência”? Quantos temas podemos tirar e elucubrar de tão pouco texto. Enfim, espero que tenha te ajudado um pouco e te animado para começar a ler mais, pois ler é algo, sinceramente, incrível.

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