Olá, leitores!

Hoje, nós vamos ver tudo como um mar de leite!

Confira todos os posts anteriores: Clique Aqui!

Caindo de Paraquedas:

Os habitantes de uma cidade, um a um, são acometidos de uma cegueira repentina sem motivo aparente. A vida, que seguia o seu tedioso ritmo monótono e repetitivo, agora é turbulenta e agressiva, as pessoas lutam por comida, o governo não sabe o que fazer e tudo está um caos tremendo. É nessa fantasia que José Saramago vai brincar de escrever e trazer à baila as mazelas de uma sociedade.

Resenha:

Quando penso em um livro do porte de O Ensaio Sobre a Cegueira muitos questionamentos vem à tona, incomodam-me, fazem com que eu observe a vida de outro modo. Senti a mesma sensação no término dessa leitura de quando leio um dos meus textos favoritos de Maquiavel: O Príncipe. Uma inquietude, um desassossego que não consigo medir, olhos as pessoas, seus passos, suas ações e começo a matutar dezenas de coisas durante o dia, a semana, quiçá, o mês inteiro. Saramago, com sua escrita cativante e imponente, brinca de escrever e coloca nesta dispotia deliciosa de ser lida várias vezes o dedo na nossa ferida.

A cegueira, que começa despretensiosa em um homem parado num sinal, se alastra de forma irrefreável e em pouquíssimo tempo afeta toda a população.

“O cego ergueu as mãos diante dos olhos, moveu-as, nada, é como se estivesse no meio de um nevoeiro, é como se tivesse caído num mar de leite.”

Primeiro ponto que pipoca na minha cabeça é como o inesperado é terrível e incrível ao mesmo tempo. O que quero dizer com isso? A mudança é algo constante em nossas vidas, pois, sem dúvida, é necessário. Há uma frase que gosto muito:

“Mudar é algo imprevisível e arriscado, mas não mudar é morte certa”

No entanto, quando a mudança vem inesperada, de surpresa, sem avisar, pode ser um caos tremendo. Foi exatamente o que Saramago fez com os personagens. Uma sociedade acostumada com um ritmo e um cotidiano e, de repente, o governo se viu com uma “bomba” nas mãos prestes a explodir e precisa fazer algo urgente. Em um mundo ideal o problema seria solucionado rapidamente, porém, esse é o pensamento ideal, utópico e fantasioso, quando tudo sai exatamente quando planejamos, mas a realidade é que nesses momentos nem sempre somos tão bons como achamos, coisas dão erradas e teremos que arcar com as consequências. Pois é, a quarentena criada pelo governo, que entulhou centenas de pessoas em um manicômio desativado, não deu certo, foi à decrepitude, solapou, as pessoas lá dentro nos mostraram o que de mais ruim pode conter no instinto humano. A luta por comida, água e higiene básica transformou aquele lugar inabitável, hostil e fadado ao escárnio das pessoas que ali estavam.

“Vamos endoidecer, de horror, pensou. Depois quis limpar-se, mas não havia papel. Apalpou paredes atrás de si, onde deveriam estar os suportes dos rolos ou os pregos em que, à falta de melhor, se teriam espetado uns bocados de papel qualquer”

Saramago, ao meu ver, escreve para dois tipos de pessoa: o alienado e o “espertão”. Todos nós vivemos algum tipo de bolha, umas são maiores, outras menores, mas, sem exceção, vivemos em uma bolha! Como a da literatura, leitura e etc. Para o alienado, o Ensaio Sobre a Cegueira serve para que ele acorde e veja que o mundo não gira apenas em torno de seu umbigo e sua afável bolha, nem tudo são flores, desconfiar um pouco mais talvez seja essencial e que estar preparado pode valer a pena. Para o espertão, o livro vem pra dizer que talvez ele não seja tão bom e precise ficar sempre alerta para o que pode estar por vir. Enfim, José Saramago, que impõe o seu jeito de escrita “exótico”, vem pra dar uma refrescada na nossa memória e dizer que podemos estar a um passo da ruína.

Situando-se

Falar de Saramago é sempre um exercício para a retórica e um bom discuso. Nascido em 16 de novembro de 1922 na província de Ribatejo, sua família emigrou para Lisboa quando ele ainda era pequeno, com muitas dificuldades financeiras, não conseguiu terminar seus estudos secundários e começou a trabalhar como serralheiro. Seu primeiro livro foi publicado apenas em 1947 e chamava-se Terra do Pecado, o segundo, só 12 anos depois. Transformou a escrita, apresentou e impôs um novo jeito de narrar e contar histórias, casou-se, ganhou o nobel da literatura e 1998 e nos deixou, infelizmente, em 18 de junho de 2010. Deixou saudade!

Além das páginas:

O sucesso e ascensão da literatura feita por José Saramago estava cada vez mais em voga. Foi então que em 2008, dois anos antes de sua morte, que sua obra ganhou as telinhas, dirigido pelo Fernando Meirelles, “Blindness” só veio pra me mostrar o quão terrível pode ser a minha imaginação. O livro como um todo possui um tema bem pesado, cenas fortes, seres humanos vivendo como animais, a decrepitude da vida está posta página após página. Minha mente imaginou tudo aqui que estava descrito de um jeito tão horrível e horripilante que quando todo o meu pensamento imaginário foi de encontro às imagens postas no filme e tive a límpida noção de que minhas cenas eram mais terríveis que aquelas postas diante dos meus olhos. Enfim, é uma adaptação fiel, bem dinâmica e entendível. No entanto, eu ainda fico com o livro para melhor entendimento e profundidade dos assuntos abordados. Ah! O melhor de tudo é que conseguimos assistir este filme pelo Youtube mesmo. Segue link abaixo:

Pra finalizar, eu tenho uma indicação incrível! Se você realmente curte o escritor e quer conhecê-lo um pouco mais, o documentário “Levantado do chão” é lindo e emocionante, ele vai falar sobre uma obra que muitos consideram como basilar para sua trajetória como um consagrado escritor.Tire uma hora de sua semana e assista =)

Gostou do conteúdo?

Comente, será um imenso prazer conversar com você!

Quer que mais pessoas saibam do assunto? Compartilhe, pois me ajudará muito!

Quer me indicar livros, elogiar, sugerir ou criticar? Envie um e-mail para contato@vidaliteraria.net

Siga-me também nas redes sociais para ficar por dentro das novidades.