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Hoje, nós vamos ser maquiavélicos!

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Caindo de paraquedas:

O Vermelho e o Negro conta a trajetória de Julian Sorel, um jovem que é caracterizado pelo seu próprio criador como “Um homem infeliz em guerra com a sociedade”. Publicado na França no período Pós Napoleônico, a obra é um clássico mundial, possui um fluxo de consciência admirável que influenciou escritores como Nietzsche e Dostoievski.

Nota: A resenha abaixo pode conter spoilers. Não estrague sua experiência, sugiro que leia o livro antes e posteriormente venha conversar um pouco comigo.

Resenha:

Vamos lá, amigos. Primeiramente gostaria de falar sobre a edição. Pois a que possuo é fruto de uma assinatura literária que faço (clique aqui para saber o que é uma assinatura literária) e está incrível! Esta clássica obra da literatura mundial deve ser encarada com seriedade para, pelo menos, entendermos alguma coisa que o escritor queria transmitir. Eu, sinceramente, realizei duas leituras para o melhor entendimento, e, mesmo assim, tenho a sobriedade de dizer que detalhes com certeza passaram sem que eu o os tenha percebido. Obra que não é pra leitor iniciante. Indicar esse livro como incentivo à leitura seria como jogar Ulisses nas mãos de alunos do ensino fundamental. Esse é um dos motivos pelos quais algumas obras são odiadas, pois, simplesmente, o livro o qual escolhemos para ler não é para nós, não estamos preparados para lê-lo. Aguarde em breve um texto sobre o assunto. Acho muito válido situar-se sobre o contexto histórico em que o livro é escrito, arriscaria dizer que sem este conhecimento é impossível absorver e entender a narrativa. Além desta dica, que serve não só para esta obra, gostaria de alertá-lo para não cometer um erro, de certa forma, comum dos leitores. Não tente analisa-la trazendo-a para a atualidade, olhando no panorama atual, pois você precisa ter uma visão e o norte de que este livro é de meados de 1830 e transportá-la para a visão do século XXI é um grande erro. No entanto, não significa que os acontecimentos relatados não sejam temas atuais, que as mazelas não permaneceram, afinal de contas, uma grande obra é atemporal e transcende ao seu tempo.
Chega de enrolação. Julien Sorel, pobre, filho de carpinteiro, nascido na cidade de Verriéres, cidadela que já se mostrara um local hostil para levar a vida.

“Eis a última palavra que decide tudo em Verriéres. DAR LUCRO. É a frase que por si só representa o pensamento habitual de mais de três quartos dos habitantes”.

Julien é um jovem perturbado com a vida e o mundo, de certo modo, até conseguimos entende-lo – pare e pense um pouco em ambiente aconchegante, onde há amor, onde é seu refúgio do vil mundo. Pensou em lar? Família? Pois é, este não é o caso do nosso protagonista, o próprio pai só despendia ódio ao filho:

“Este (O pai de Julien) se dirigiu ao galpão; ali entrando, em vão procurou Julien no lugar onde ele deveria estar, ao lado da serra. Avistou-o cinco ou seis pés acima, a cavalo numa das vigas do telhado. Em vez de vigiar atentamente a ação de todo o mecanismo, Julien lia. Nada era mais antipático ao velho Sorel; talvez tivesse perdoado a Julien o porte esbelto, pouco apropriado para o trabalho pesado e tão diferente daquele dos irmãos mais velhos, porém a mania de leitura lhe era odiosa: ele mesmo não sabia ler”.

Mesmo sem vocação, nosso garoto começa a estudar latim e os textos bíblicos para tentar ao menos melhorar sua situação; e rapidamente ele surpreende a todos da cidade com a sua enorme inteligência e capacidade de decorar toda a bíblia, chegando ao nível de que se alguém começasse a recitar qualquer passagem, ele era capaz de continuar e recitar todo o resto. Levando assim o rapaz a ir subindo, mesmo que de forma limitada, os degraus na sociedade, fato que é comprovado desde a sua cidade natal – quando é preceptor das crianças do Sr. e da Sra. De Renal para ensiná-las latim, passando pelo seminário e sendo, o que nós chamaríamos hoje, de assessor do marques de La Mole. Facilmente notamos ao transcorrer da leitura é que ele respira, transpira e aspira à ascensão; a resultante disso é a característica mais marcante do personagem: a sua dubiedade.
O jovem Sorel tem nojo de toda nobreza, marqueses e pessoas consideradas fidalgas, porém, tudo que ele faz é em prol de se tornar um deles, de obter poder e glória, mas no fundo, por mais que ele tenha a ideia de que o conhecimento e a inteligência é a maior arma para ser livre, ele sabe que ele nunca experimentará o prazer de pertencer a esta selecionada plêiade simplesmente pelo fato de não ser de família nobre, e isto, claramente, o deixa extremamente decepcionado e angustiado.

Na narrativa nós vamos notar com clareza, em todo o livro, a devoção e adoração dele por Napoleão Bonaparte, apesar disso, ele não pode demonstrar esta adoração para evitar a repressão (olha aí a importância de saber o contexto histórico). Chega, em certos momentos, a serem engraçadas as falas de Julien ao adorado.
A nítida impressão que é passada pelo personagem é que ele é um ator em todo o momento, toda a sua vida não passa de um grande teatro, uma encenação, falsidade vívida e pungente, o que o faz ser, ao mesmo tempo, adorado e odiado por muitos. Porém, o personagem me cativou, sem dúvida, pelo fato de que seria angustiante viver toda uma vida mentindo, sendo quem realmente não é, apenas, única e exclusivamente para galgar patamares “maiores”. Confesso que em alguns momentos acreditei que ele teria sido sincero nos “amores” vividos com a Senhora de Rênal e a Filha do Marques de La Mole, no entanto, Julien Sorel está tão acostumado a ser hipócrita e mesquinho durante toda a vida que no final das contas fica impossível vê-lo sendo sincero. Nosso encenador claramente tem um complexo de inferioridade gigantesco, uma mania de perseguição que criava a cada página uma barreira para que ele pudesse obter das pessoas um sentimento sincero. É do cotidiano de Julien se relacionar com as pessoas sempre de forma condicional, sempre tendo que dar algo em troca, pois quando as crianças as quais ele deu aula latim o veem e demonstram claros sinais de saudade ele vai às lágrimas, talvez seja este o único lampejo de sinceridade em todo o livro.

Ao cabo, ele se mostra como um legítimo alpinista social que subiu ao topo do Everest e morreu na descida, seu final é lastimável, termina praticamente louco, achou que era o controlador, que obtinha o controle de tudo ao seu derredor e acaba sendo o controlado; no fundo, talvez o que Julien Sorel queria mesmo era apenas ser amado.

Sitando-se:

Henri-Marie Beyle assinou, durante a sua carreira literária, com diversos pseudônimos, no entanto, talvez o mais conhecido seja Stendhal. Foi em Genoble, na França, em 23 de janeiro de 1783, que Stendhal nasce e cresce, criado basicamente pelo pai e a tia, pois fora órfão de mãe desde 1789. Teve passagem pela guerra na vida adulta, época de Napoleão, isso explica a influência sobre a sua primeira grande obra, O Vermelho e o Negro. Stendhal nos deixa em 23 de março de 1842 aos 59 anos, mesmo assim, muitas obras foram publicadas postumamente.

Além das páginas:

A curiosidade de hoje fica por conta do Museu Stendhal!

museu

Certamente, caso você estiver pelas redondezas da cidade, ouvirá falar de Stendhal, é por essas e outras que em homenagem ao grande escritor que foi Henri, a cidade de Genoble inaugurou um complexo museológico dedicado ao seu ilustre filho. A grande verdade é que o museu é composto por três espaços distintos. A casa do Dr. Gagnon, seu avô materno, onde é o museu propriamente dito, sua casa natal, que foi convertida em um espaço de estudos para a dedicação da leitura e escrita e a biblioteca municipal de Genoble, que possui um acervo de mais de 1000 obras, não só do Stendhal, alguns manuscritos originais e diversos estudos sobre a obra e as influências do autor.

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