Olá, enclausurado!

Hoje, espero que você não seja claustrofóbico!

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Caindo de Paraquedas:

Enclausurado é uma obra, sem dúvida, ousada e divertida, Ian Mcewan nos apresenta como narrador um feto que, obviamente, encontra-se enclausurado nas entranhas de sua mãe. É de lá que acompanharemos toda a saga de sua mãe e tio em busca de um único objetivo: matar o seu pai. Ao fim da história notaremos com clareza o porquê Mcwean é um dos escritores mais aclamados da contemporaneidade.

Resenha:

“Deus, eu poderia viver enclausurado dentro de uma noz e me consideraria um rei do espaço infinito – não fosse pelos sonhos ruins”.
Shakespeare, Hamlet.

Não é à toa que na epígrafe há a citação colocada acima. De certo, Ian Mcewean bebe na fonte Shakesperiana para a construção do seu romance mais recente. Digo isso não por nenhuma genialidade aparente, mas sim por que o próprio autor revelou em entrevistas concedidas ao El País e ao O Globo. Ele comentou sobre a ideia do livro:

“A primeira sentença surgiu completa na minha mente em um momento de branco total. E foi simplesmente uma questão de aproveitar todas as oportunidades que eu podia com um narrador que é existencialmente puro, não tem compromissos, alianças, religião, inimigos, amigos. É como um narrador de (Samuel) Beckett, apenas uma voz no escuro. Ao mesmo tempo, estava relendo “Hamlet”, de Shakespeare. Muito rapidamente essas duas coisas passaram a girar em torno uma da outra. Então, foi uma questão de investigar todas as possibilidades que se apresentavam”.

As semelhanças com o clássico Hamlet começam pelos nomes dados aos personagens. Na tragédia original temos o príncipe Hamlet e sua sede por vingar a morte de seu pai, o principal suspeito de matá-lo é seu tio, Claudios. No meio disso tudo ainda temos Gertrude, sua mãe, que passa praticamente toda a peça lamuriando. Já em Enclausurado podemos fazer a comparação do feto como Hamlet e seus pensamentos e devaneios sobre a vida, sua mãe Trudy e a habilidade impar de ficar em cima do muro e frieza do ser humano em pessoa, seu tio, Claude.

“Minha mãe preferiu o irmão do meu pai, traiu seu marido, arruinou seu filho.”
Enclausurado


Ao ler a sinopse do livro uma outra obra vem à mente: Memórias Póstumas de Brás Cubas, onde um morto conta toda a sua trajetória no período em que esteve vivo. Então fiquei animado em pensar que o clássico morto brasileiro seria inspiração para uma obra tão atual. No entanto, o próprio Mcewan desmentiu a inspiração na obra de Machado =/

Muitos acreditam que a literatura é a fuga da realidade, uma viagem pela história e o deslocamento desse plano palpável. Por conseguinte, para ler Enclausurado nós precisamos levar essa ideia à risca, pois toda a narrativa é feita por um feto dentro da barriga de sua mãe, aprecia vinhos e fica bêbado, o que, logicamente, é um premissa absurda. Todo esse princípio vem de uma grande admiração de Ian por Franz Kafka e sua habilidade de transformar o cotidiano com um ato extraordinário de imaginação.

A dubiedade do conhecimento..

O que marca durante toda o romance, de fato, é o narrador. Desse modo, o famigerado protagonista alterna em dois momentos: a plenitude e a ignorância. Um feto, obviamente, nunca viu o mundo aqui fora, não conhece pessoas, lugares, sua experiência de mundo é nula, e, claro, isso reflete em sua ignorância durante alguns momentos aos quais ele não sabe ao certo o que é tal objeto ou o significado de alguma palavra. Contudo, há momentos de plenitude intelectual ao ponto de identificar os nomes dos vinhos como, por exemplo, Pinot Noir e Château.

“Eu poderia ter vindo ao mundo na Coreia do Norte, onde a sucessão também é garantida, mas onde faltam liberdade e alimentos.”
Enclausurado

To be, or not no be…

Localizado no Ato I, Cena III de Hamlet, o monólogo mais famoso do mundo “Ser ou Não Ser”, que discorre sobre existir ou não, suicídio, paradigmas da vida, está também nesse pequeno livro de forma sutil… Há momentos que o feto almeja de maneira intensa vir ao mundo, conhecer lugares, beber os vinhos por conta própria e viver, SER! Todavia, há momentos em que deseja não nascer, ou melhor, NÃO SER! Isso fica claro quando o feto pensa em se matar com o cordão umbilical: “Preciso usar meus braços, minhas mãos, mas há tão pouco espaço! Vou dizer bem rápido: vou me matar”.

“Nem todo mundo sabe o que é ter o pênis do rival do seu pai a centímetros do seu nariz”.
Enclausurado

A verdade sobre o livro…

Enclausurado pode parecer um livro macabro que fará grandes críticas à sociedade ou que por ser inspirado em uma tragédia teremos grandes solilóquios e ao final todos morrerão. Entretanto, apesar de existirem alguns monólogos aqui e acolá que ficam por conta, muitas vezes, do feto e de seu pai, que é um poeta, a história tende a pender mais pela visão cômica desse ser ainda incompleto. Com sequer 200 páginas, Ian Mcewan e Enclausurado nos trás uma história interessante e muito bem escrita, lampejos de reflexão e uma comicidade de alto nível, principalmente, nas cenas de sexo! Enfim, espero ter te deixado empolgado para lê-lo! Boa leitura!

Situando-se:

Nascido em 21 de junho de 1948 em Aldershot, Hempshire, Reino Unido, Ian Mcewan tem se tornado uma dos escritores mais importantes de sua época. Há obras consideradas perturbadoras e seus romances estão, normalmente, relacionados com temas atuais. É ganhador, dentre outros, do prêmio Man Book Prize e o seu livro mais recente é este resenhado hoje.

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