Olá, leitores!

Hoje, vamos conversar sobre um menina incrível!

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Caindo de Paraquedas:
Lançado em 2016, Getrude Sabe Tudo conta a história de uma doce menina, cheia de amores e sonhos. Entretanto, a vida não lhe parece um conto de fadas, um príncipe não virá buscá-la e tudo pode não terminar em um final feliz.

Resenha:

– Olha, D. Mirtes, essa sua filha está muito cheia de respostas!
Getrude Sabe Tudo.

O Efeito Manada…

Há os que acreditam que a nossa vida é um encontro com o mundo diariamente inédito e virgem, o que, de fato, acontece aqui e acolá. Contudo, na maioria as vezes somos afetados pelo efeito manada.

Durante todo o progresso de nossa existência fazemos conexões com pessoas, sentimentos e lugares, proclamamos ser o topo da cadeia alimentar, racionais, definitivamente, os melhores. Todavia, parece-me claro que o diferente incomoda, inquieta, atormenta. O efeito manada nada mais é que uma metáfora do pensamento do senso comum, raso, frívolo, que torna o ser humano pequeno. Imagino eu que você provavelmente já teve um diálogo parecido:

Filho – Mãe, mas todos estavam fazendo;
Mãe – Então, se todos se jogarem da ponte você também se joga?

“No entanto, ela se move!”
Gertrude Sabe Tudo

Desde o berço estamos propensos a agir junto com as manadas, é, de certa forma, normal nos ajuntarmos e criarmos empatia com aqueles que estão ao nosso redor, da mesma escola, da mesma classe social, da igreja, do clube, do trabalho, enfim, talvez tudo seja o efeito manada. Entretanto, isso pode ser um problema quando o diferente é solapado e rechaçado simplesmente por não seguir o “padrão”. Precismos refletir apenas um instante para perceber que as grandes mudanças do mundo foram realizadas por pensamentos que vão de encontro aos pensamentos dogmáticos enrijecidos da grande massa. Galileu quase foi à fogueira por pensar diferente, mas foi importantíssimo na revolução científica, Einstein, Freud, Napoleão, Aristóteles e tantos outros foram pessoas notáveis por não aceitar o efeito mandada. Ao cabo, Rafael quer trazer à baila que o diferente, na verdade, é necessário.

O Preconceito…

Todo esse repúdio contra o diferente, muitas vezes, vem carregada de preconceito e possui incrustado nesse pensamento uma certa ignorância ou verdades prontas. Tenho a impressão que Rafael não usou uma menina, mestiça e inteligentíssima à toa, quebrar os idealismos e pré-conceitos criados por nós mesmos é algo de suma importância, na verdade, essencial para que as gerações que estão por vir não sejam educadas por preconceituosos.

Incentivo à Leitura…

Esta obra pequena, que gira em torno de 30 páginas e ainda possui ilustrações muito bem feitas, trás algo muito interessante: a leitura e a sua importância. Quando me deparo com a passagem em que os pais, simplesmente, jogam fora todos os livros de uma adolescente fico temeroso, pois sei que isso pode ser uma realidade. A leitura precisa ser vista de maneira melhor, principalmente pelos pais, pais leitores geram filhos leitores e assim por diante. Essa pequena narrativa precisa produzir reflexão para que possamos repensar os valores do que é educar, tem-se a triste visão de que a escola é o lugar para educação, quando, na verdade, a escola faz parte dela e não é a única fonte da educação. Por conseguinte, o que temos por detrás, de fato, é uma delegação de obrigações.

A Lança Cega…

O adolescente recluso, à margem da sociedade, indouto, navegando, quer dizer, naufragando na internet e dentro tantas outras características, são “alfinetadas” do Rafael aos que querem impedir que os talentos das pessoas sejam exercidos e evoluídos. Ao cabo, a reflexão final fica ao cargo de um mundo menos impositivo e mais expositivo, que não tenhamos pessoas destruindo talentos e sonhos alheios, mas orientando-as e incentivando-as, para que cada um se descubra e possa fazer aquilo que lhe é factível, alegrador, questionando e construindo juntos para que ao fim de tudo não sejamos, apenas, uma manada.

Situando-se:

L. Rafael Nolli nasceu na cidade de Araxá, MG, no ano de 1980. Professor de Geografia. Publicou Memórias à Beira de Um Estopim (2005) e Elefante (2013). Gertrude Sabe Tudo (2016) é o primeiro livro de Rafael pela editora Gulliver.

Além das Páginas:

O nobre Rafael fez a gentileza de me conceder uma breve entrevista. Confira abaixo:

1) Quem é o Rafael?

Pergunta complicada. Eu me entendo, há algum tempo, como professor, formei-me em letras e tinha o grande sonho de ser professor de literatura. Com o passar do tempo, fui migrando e pegando muitas aulas de geografia, o que culminou em minha migração por completo para a geografia. Já formado em letras, comecei a cursar geografia até me formar. Hoje, possuo duas graduações. Sendo assim, atualmente, dou aula apenas de geografia, as aulas de literatura eu fui abandonando. Vale um adendo, o meu projeto é aliar cada vez mais e de forma mais contundente a geografia com a literatura, que aliás, foi o tema de minha monografia. Além disso, sou escritor. Infelizmente, como ser professor me exige muito tempo, tenho dedicado uma parcela bem reduzida do meu dia a dia a escrever. Acredito que num futuro próximo eu consiga arrumar mais tempo para me dedicar à literatura. Mesmo sem esse grande espaço, já estou no meu terceiro livro. Publiquei, anteriormente, dois livros de poemas e este é o meu primeiro livro infanto-juvenil.

2) Quando começou e o que gosta de escrever?

Posso dizer que não me lembro de quando comecei a escrever, desde que eu me entendo por gente eu leio, tenho recordações muito antigas dos primeiros livros que li. Escrever é um pouco isso também: lembro-me que na escola fazer redação era sempre uma alegria pra mim. Os primeiros poemas feitos por vontade própria surgiram logo no começo da adolescência. Sempre achei que a comunicação escrita era uma forma agradável e me atraía. Todavia, meu primeiro livro foi publicado apenas em 2005, já com 25 anos de idade.

3) Quais são as suas influências?

Eu acredito que possuo muitas influências em áreas distintas. Não sou influenciado apenas por um ou dois autores literários, como costuma ocorrer. Claro, tenho alguns autores que vejo como farol na poesia, na literatura infantojuvenil, na literatura adulta, no romance, no conto… Na verdade, essas referências devem se tornar cada vez mais amplas. Busco isso, influencias não só literárias, mas em músicos, pintores, etc… Todas as formas de expressão artística me chamam atenção. Talvez seja até uma característica desse momento em que vivemos, com toda essa facilidade de acesso a qualquer tipo de arte e artistas em qualquer lugar do mundo. Que vantagem maravilhosa! Não vejo como algo produtivo ter como influências apenas autores literários. A influência é ampla, variada, passa por diversas áreas: essa possibilidade de poder misturar tudo e tentar transformar isso em literatura é uma das minhas metas.

4) Você comentou sobre influências de várias áreas, inclusive, músicos. 2017 foi um ano em que Bob Dylan levou o prêmio em Estocolmo. O que você acha disso?

Ótima pergunta. Desde o começo, achei uma ótima ideia um músico ser ganhador do prêmio nobel, porque se a gente for buscar lá na gênese da poesia, nós vamos ver que os primeiros poetas eram, no geral, cantadores. A poesia, na verdade, é anterior a linguagem escrita! Não havia essa distinção igual hoje há entre a palavra escrita e a cantada, como se fossem manifestações distintas. A origem da poesia está ligada àqueles cantadores da antiguidade que cantavam as poesias por onde passavam; está ligada aos rituais onde a palavra era manifestada como canto, está ligada mais recentemente aos menestréis que iam de castelo em castelo, de casa em casa, pelas ruas da idade média. Ou seja, o que quero dizer, na verdade, é que essa distinção entre palavra escrita e palavra falada/cantada, é algo moderno. O Bob Dylan não só escreveu belas canções altamente poéticas, tal como exerceu uma influência gigantesca na literatura. Se formos pensar, por exemplo, na poesia beat dos anos 50/60, essa influenciou o Bob Dylan, que mais pra frente alcançariam outros poetas e escritores com suas canções. Logo, achei mais do que justo. Muitas pessoas que são premiadas com o nobel não possuem influência grandiosa, não têm obras reconhecidas internacionalmente, são autores de importância, muitas vezes, reduzida. Os últimos premiados, por exemplo, eu sequer conhecia, alguns nem traduzidos para o português foram. Criticar o Bod Dylan dizendo que ele não é um escritor para ganhar um prêmio voltado aos escritores é triste, preocupa-me um pouco essa segmentação sobre o que é música, o que é poesia, o que é literatura e o que não é. Achei muito bom que a academia, que geralmente é um lugar fechado, conservador e de mente pouca aberta, dar esse passo: mostrar que a literatura não é só o que está publicado no livro, que ela vai muito além, que há grandes construções poéticas nas letras de músicas, seja rap, funk, rock… em qualquer estilo musical. Então, essa visão das pessoas que criticaram o premiado, no geral, carregam um certo preconceito e isso me preocupa, dizer que ele não merecedor do Nobel por ser músico é algo sério. Bob Dylan possui um livro que, de fato, não é relevante, no entanto, toda a sua obra poética é relevante, e, no fim, colocando na balança, toda essa obra acaba sendo muito mais significativa que boa parte da obra dos poetas que nós temos hoje, que apenas escrevem no papel. Isso pra mim mostra a necessidade e a importância de que não é só o papel, o poeta, a solidão e a tristeza em casa que faz literatura, mas que também se fazem grandes obras subindo num palco com uma guitarra e uma banda de apoio.

5) Gostaria de falar um pouco sobre o Gertrude Sabe Tudo. Qual foram as suas dificuldades para publicá-lo?

No caso do Gertrude Sabe tudo, eu enviei o material para a editora, a Gulliver, que tem sede em Divinópolis, Minas Gerais. Eles fizeram todo o processo, a captação de dinheiro, o ilustrador, a divulgação e todo o trabalho de produção. Apesar de ser uma editora pequena, foi um trabalho bem bacana feito por eles. Viajei a Divinópolis para divulgar o livro em algumas escolas e na medida do possível eles vão organizando horários para que eu possa fazer a visitação em alguns locais. No geral é isso, enviei o material para a editora, eles curtiram e compraram a minha ideia.

6) A Gulliver foi a primeira editora que você enviou o livro?

Esse livro, em específico, eu mandei só para a Gulliver. Eu conheci o editor, apresentei o livro para ele e ele gostou imediatamente, não tive a oportunidade de apresentar a obra para outras editoras. Vinha sondando algumas editoras porque eu tenho outros livros prontos e a ideia era fazer alguns contatos para enviar os materiais para elas. Todavia, como disse, com a Gulliver foi bem rápido, nas primeiras semanas eles já disseram “sim” e o livro ficou por conta deles logo.

7) Ainda sobre o livro, especificamente ao final, nós temos uma nota do editor que, na minha opinião, prende e limita a reflexão do leitor. O que pode me dizer sobre isso?

Totalmente de acordo contigo. A nota que vem no fim do livro foi escrita pelos editores, nós acabamos confiando muito nos nossos editores, eles fazem um trabalho muito importante, fizeram levantamento de dinheiro, investiram na obra, na divulgação, sem eles esse livro não existiria. No entanto, eu acho que aquela nota sobra no livro, os editores acharam que seria uma forma interessante que poderia somar ao livro e eu discordo, o ideal era o livro terminar e fim, sem nota alguma, porque ao cabo, a nota do editor faz uma explicação sobre o livro baseado numa visão deles. A obra foi escrita intencionalmente, de forma estratégica, para que ficasse em aberto e abrisse possibilidade de outras visões e interpretações do leitor. Logo, a nota acaba limitando e direcionando o leitor, de fato, a nota não era necessária.

8) A história da Gertrude me passa uma ideia de mundo Grego e ordenado, que nós devemos desenvolver as nossas virtudes e habilidades para sermos felizes. Você pensou nisso ao escrever?

O livro gira muito em torno disso mesmo, a ideia principal seria que a Getrude tem um caminho e conhece o seu espaço, no entanto, só isso não basta. Na verdade, não é suficiente apenas encontrarmos nosso espaço e definirmos a nossa meta, vão aparecer sempre pessoas para impedir que a sua caminhada seja concluída: vão aparecer pessoas por motivos variados tentando atrapalhar as suas conquistas. O caminho da Gertrude parecia bastante óbvio, ela não deveria ter esses problemas, mas essas dificuldades aparecem quando vivemos em uma sociedade incapaz de aceitar o diferente, incapaz de aceitar aquele que não faz o que você espera dele. Portanto, sem dúvida, esse conceito grego se encaixa, apenas saber quem nós seremos e o que buscamos, infelizmente, não é o suficiente.

9) Para finalizar, quais são os seus projetos futuros?

Projetos são muitos! Tenho dois livros de poemas prontos, aguardando a oportunidade para publicá-los. Escrevi ano passado outro livro infanto-juvenil, que deve sair até o fim do ano! Iniciei uma parceria com um músico, e hoje temos 8 músicas compostas, que devem em breve virar um álbum! Em fim, os projetos são variados e muitos!

Agradeço muito pela oportunidade! É sempre bom falar de livros, literatura e arte em geral!

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