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Caindo de paraquedas:

A rosa do povo é considerado, sem dúvida, o livro mais politicamente explícito de Carlos Drummond de Andrade, sua narrativa irreverente trata sobre guerra e mais do que isso, mostra um momento sombrio que vivia o Brasil e o ser humano. É sua obra mais extensa, contém 55 poemas em que Drummond derrama sua alma, sentimentos e dores.

Resenha:

Nem só por “No meio do caminho tinha uma pedra” que Drummond é reconhecido como um grande escritor. O livro de hoje está aqui para fortalecer essa ideia.

“Em verde, sozinha, euclidiana uma orquídea forma-se”

Drummond se destaca com essa obra por muitos motivos, os quais fazem dele um notável criador de poemas. A abrangência é algo perceptível aos nossos olhos, ele desfila desde temas como poesia para a sociedade, o que é expressado em A Flor e Náusea e Áporo, passa por paródias com a Nova Canção do Exílio, até questionando a existência do ser humano em Anoitecer ou Morte no Avião. Sua capacidade narrativa, tanto em versos curtos e longos, nos faz refletir o quanto a escrita, principalmente os poemas, tem o condão de nos tocar profundamente.

“Já não há mãos dadas no mundo. Elas agora viajarão sozinhas”.

Por ser funcionário público, ainda viver as angústias dos horrores da segunda guerra mundial e simultaneamente sobre a ditadura de Getúlio Vargas no Brasil, política não poderia faltar em seu repertório, o que faz de sua obra mais longa, com 55 poemas, estar encharcada de críticas sociais, alfinetadas, ou melhor, socos na boca do estômago. Nota-se também que sua posição política fica evidente em seus poemas, palavras ditas com clareza nos transmitem a aversão aos valores capitalistas, Drummond não se omite e nem tenta inibir a sua condição.

“Território dos homens livres
Que será nosso país
E será pátria de todos.
Irmãos, cantai esse mundo
Que não verei, mas virá
Um dia, dentro em mil anos”.


O posfácio do livro traz algo interessante, traz uma dificuldade em vincular pacificamente os dois substantivos que dão nome à obra: a rosa, o povo. Ora a rosa é exposta como símbolo de conexão com os outros, ora é resguardada como emblema daquilo que de mais recôndito o poeta preservasse. Como no antagonismo e o gesto de autossuficiência de beleza em Áporo, que a partir de um subsolo escuro de um minério pode eclodir um orquídea. Com isso, Antonio Carlos Secchin traz à baila que não é fácil expor, sem riscos, uma rosa ao povo quando, já no terceiro poema do livro, “A Flor e a Náusea” ela irrompe um contexto em que o ser humano exerce o papel de hostil contraponto:

“Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.

A diversidade formal de Carlos Drummond de Andrade pode ser verificada na alternância entre o verso livre e o metrificado na composição dos poemas. Embora predomine o verso livre em 25 dos 55 poemas do livro, o que não era tão comum assim,A Rosa do Povo é um livro que, para ser absorvido com eficiência pela nossa parte inteligível, precisa ser lido aos poucos, só assim ele será marcante, sua degustação precisa ser igualada a petiscos à mesa, comendo aos poucos e saboreando o que ele pode nos dar de melhor, lampejos de reflexões profundas, quiçá, incomodadoras, atormentadoras, doses diárias de poesia. Esse tipo de arte quando consumida de forma efêmera e desapercebida acaba caindo na superficialidade e, ao cabo, vamos delegar a nossa falha como leitor ao livro, que acabará sendo chato, enfadonho e, por conseguinte, a sua experiência literária será ruim e arrastada.

Situando-se:

31 de outubro de 1902, Itabira, Minas Gerais, nascia Carlos Drummond de Andrade, menino que em 1909 é expulso da escola por “insubordinação mental” (seja lá o que isso signifique) se torna um dos maiores artistas da nossa literatura. Desde 1921, quando publicou seus primeiros trabalhos no diário de Minas, até sua morte aos 84 anos em 17 de agosto de 1987, teve uma vida literária intensa, ganhando vários prêmios, entre eles o prêmio jabuti em 1968 e Prémio da Associação Paulista dos Críticos de Arte em 1973.

Fonte para apoio: O processo expiatório de A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade, Leandro Pasini.

Leituras Recomendadas:

Arrigucci Jr., Davi
Coração partido.
São Paulo: Cosac Naify, 2002.

Gledon, Jhon.
Poesia e poética de Carlos Drummond de Andrade.
São Paula: Duas Cidades, 1976.

Merquior, José Guilherme.
Verso Universo em Drummond.
2ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.

Sant’nna, Affonso Romano de.
Carlos Drummond de Andrade: a análise da obra.
3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

Simon, Iumma Maria.
Drummond: uma poética do risco.
São Paulo: Ática, 1978.

Villaça, Alcides.
Passos de Drummond.
São Paulo: Cosac Naify, 2006.

Além das páginas:

Curiosidades sobre Drummond:

1 – Não fez parte da ABL (Academia Brasileira de Letras)

Drummond nunca sequer se inscreveu para candidatar-se para ocupar uma cadeira. Será que seria eleito se fosse candidato?

2 – Virou nota de dinheiro.

Em 1989 o Brasil ganhou notas de Cruzado Novo, que cortavam três zeros em relação à moeda anterior, o Cruzado. A nota de 50 cruzados novos foi estampada por Drummond – de um lado o rosto do poeta, do outro o poema Canção Amiga (do livro Novos Poemas, de 1948): “Eu preparo uma canção/ que faça acordar os homens/ e adormecer as crianças.”

3 – Era agnóstico.

Drummond era agnóstico e pediu que nenhuma homenagem ou oração fossem feitas durante o seu sepultamento. Também não queria cruz ou símbolos religiosos. Seu enterro, realizado no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, reuniu cerca de 800 pessoas, entre amigos, parentes, artistas, políticos e fãs. Seu corpo foi enterrado ao lado do da filha.

4 – Traduziu músicas da banda The Beatles.

A revista Realidade (Editora Abril) trouxe, na edição de março de 1969, seis músicas da banda britânica The Beatles traduzidas por Drummond. Todas elas fazem parte do The White Album, lançado no final de 1968, com 30 músicas. As canções traduzidas são: Ob-La-Di, Ob-La-Da; Piggies; Why don’t we do it in the road?; I Will; Blackbird e Happiness is a warm gun. Durante sua carreira, Drummond também traduziu diversos livros para o português. Autores como Marcel Proust, Balzac e García Lorca foram alguns dos autores estrangeiros que o poeta traduziu.

5 – Foi tema de documentário de Fernando Sabino.

O cronista e romancista Fernando Sabino gravou nas décadas de 60 e 70, junto com diretor de cinema David Neves, uma série de documentários em curta-metragem com grandes nomes da literatura nacional e reuniu no filme Encontro Marcado com o cinema. No curta sobre Drummond, intitulado O Fazendeiro do Ar (1972), o poeta aparece falando sobre sua vida e sobre o seu cotidiano. Ele a caminho do trabalho, em casa com a esposa, conversando com os amigos, lendo dentro do ônibus. Em uma passagem, brinca de se esconder nas pilastras do Edifício Gustavo Capanema, onde ele trabalhou no Ministério da Educação.

Vamos ler juntos?

Dê o play e me acompanhe em mais um poema.

Áporo
um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.

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