Olá, amantes de contos!

Hoje, nós vamos nos deleitar em alguns contos e suas releituras!

Confira todos os posts anteriores: Clique Aqui!

Caindo de paraquedas:
Uns e Outros: Contos espelhados é um livro exclusivo para os assinantes do club da TAG-Experiências Literárias. Nessa empreitada, alguns escritores brasileiros foram escolhidos para apresentarem releituras de grandes contos de maneira espelhada, ou seja, parafraseando, reeditando, inspirando-se e batalhando para trazer à baila uma boa literatura.

Resenha:

“Todo texto é uma máquina preguiçosa, pedindo ao leitor que faça uma parte do seu trabalho”.
Umberto Eco.

A ideia de juntar escritores da atualidade para realizarem releituras de grandes contos é, no mínimo, ousada, pois ao arriscar nesse projeto o clube andou em uma linha tênue entre o gozo e o fracasso. Todavia, para nossa alegria, o resultado do projeto de 3 anos de aniversário da TAG! foi um compêndio de releituras, na grande maioria, notáveis.

Meu apreço pelos contos é grande, não é a toa que já escrevi sobre eles aqui no texto “Saia da Inércia. Leia Poemas e Contos!”. O que faremos aqui é tentar falar um pouco sobre cada conto e sua releitura sem estragar a experiência de leitura para quem ainda não leu a obra. Vamos lá, então?

1 – Eveline – James Joyce!
Logo em sua abertura, Uns e Outros traz Eveline, do James Joyce. O conto visa à construção da visão dualista sobre os conflitos. Eveline, a protagonista, vive com o pai e seus irmãos, a cada dia percebe a realidade miserável em que está e reflete sobre o tempo, a vida e todo o universo que a circunda. Certo momento, uma paixão aparece e a fuga parece ser necessária. A história vai transcorrendo e uma dúvida paira: fugir, ter uma nova vida, um recomeço e, quiçá, uma vida feliz ou ficar onde está e honrar a promessa que fez para sua falecida mãe de cuidar da família?

1.1 – A Morte da Mãe – Beatriz Bracher!
A paráfrase do conto traz a história contada da visão do irmão de Eveline, Ernest, recurso este que será explorado por outros autores dessa obra. Aqui nós também temos uma dualidade apresentada, porém, um dualismo entre as obrigações e padrões que a sociedade exige de homens e mulheres, enquanto Eveline se preocupa com a família e toda a dúvida de ir embora ou não a corrói, Ernest, não demonstra tamanho afeto ou indecisão na hora de deliberar sobre os embates, parece, na verdade, que se fosse ele no lugar de Eveline não titubearia em largar tudo e abandonar o pai bêbado e os irmãos.

2 – O Fim de Algo – Ernerst Hemingway!
O fim de algo (1925), é o conto que mais te exigirá pensar por inferência, ser atencioso na leitura e, sem dúvida, pensar metaforicamente. A história conta a trajetória de um casal, Nick e Marjorie, que vai ao lago para pescar e conversar sobre o relacionamento enquanto navegam e observam uma antiga cidade que era repleta de madeireiras, mas que hoje está destruída e abandonada. A grande relação metafórica que salta aos olhos no conto é a do relacionamento do casal com a cidade, que um dia era vívida, cheia de pessoas, produzindo, trabalhando, movimentando, mas agora está soçobrada, solapada pelo tempo, estática, tornou-se passado. Já pensou em seus relacionamentos?

2.1 – O Início de Alguma Coisa – Luiz Antônio de Assis Brasil!
Aqui nós teremos também o recurso da reescrita do conto pela visão de outro personagem. A narrativa, antes contada pela visão de Nick, agora é contada pelo espectro de Marjorie. Vale a pena ainda citar que o final, tanto do original quanto da reescrita, é deixado em aberto para que o leitor faça as inferências sobre o relacionamento. Afinal, terminou ou não?

3 – Os Desastres de Sofia – Clarice Lispector!
Este conto é um dos que mais incomoda, sem dúvida! Os Desastres de Sofia é contado pela adulta Sofia relembrando o tempo de escola aos seus 9 anos de idade quando teve uma paixão pelo seu professor. Mesmo que durante o texto de Clarice não tenha notado traços veementes de pedofilia, ler uma criança de 9 anos dizer que é “Cedo demais para ver como nasce uma pessoa” ou “Pela primeira vez eu estava só com ele, sem o apoio cochichado da classe, sem a admiração que minha afoiteza provocava” me deixou bastante desconfortável durante toda a leitura.

3.1 – Simplício – Eliane Brum!
Nós temos neste conto o recurso de mudança de ponto de vista também, pois a história agora é contada pela visão do professor de Sofia e vai revelar as ideias do educador. Se no texto de Clarice eu não percebi indícios de pedofilia, no texto da Eliane fica nítido pra mim as intenções do professor quando leio “E ela havia elegido a mim, o homem de passos de elefante, o escritor com duas orelhas que preferia só ter uma, para enxergar não a mulher que ela viria a ser, mas a menina que era, para que um dai ela pudesse se tornar a mulher que viria a ser”. O professor confessa em certos momentos que a evitava de todas as maneiras porque o seu desejo de tê-la, possuí-la era incontrolável. Ficou curioso pra ler?

4 – Teoria do Medalhão – Machado de Assis!
Não é à toa que Machado é considerado um dos autores mais completos da literatura brasileira, quiçá, do mundo, isso é refletido também nessa coletânea em que suas obras aparecem em 3/10 contos e vem nos agraciar com histórias contadas de maneira ímpar com o incrível domínio da 2ª pessoa. Teoria do medalhão é uma conversa de um pai com o seu filho em que a figura do pai dá dicas consideradas essenciais para o filho se tornar um “Medalhão”, ou seja, se tornar bem sucedido na vida. Para isso ele pede que o filho basicamente viva de aparências, que seja sempre cordial, elogie as pessoas e faça de tudo para ascender socialmente. Ao cabo, fica claro no trecho “Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que deposito em ti” que o pai apenas quer que o filho seja o que, de fato, ele não foi.

4.1 – O Futuro Político – Milton Hatoum!
Enquanto o filho no texto do Machado é pouco reativo, apesar de, em muitos momentos, os pensamentos do pai serem distintos dos dele, ele mostra consentimento quando o pai fala, fica na passividade e parece ter até certo orgulho do pai, no texto do Hatoum é notavelmente distinto. Primeiro, o recurso usado pelo Hatoum é de trazer a história para os tempos atuais, sendo assim, portanto, o filho acaba de se formar em direito e faz um discurso acalorado em sua colação de grau, após o discurso a conversa com seu pai se inicia. No entanto, aqui nós temos um filho reativo e que retruca toda e qualquer dica do seu pai, além de não demonstrar qualquer apreço pelo seu progenitor. Também notaremos um forte cutucada no cenário político atual, principalmente no discurso do filho, pois aqui o seu pai tornou-se um “medalhão” e ascendeu socialmente, mas o filho não tem orgulho da maneira que utilizou pra isso. Apesar de ter gostado do tema, achei o texto, de certa maneira, pobre, Milton Hatoum já foi capaz de bem mais do que isso, não sei, mas por tentar dar essa cutucada política ele pode ter se perdido e o texto foi aquém das minhas expectativas.

5 – Negrinha – Monteiro Lobato!
Negrinha é um texto forte e impactante, mas também é um dos que mais gostei da coletânea. Contado na 3º pessoa, Negrinha, que é uma personagem sem nome, que vive numa época pós escravatura que ainda está arraigada de preconceitos, maus tratos e humilhações. O conto apesar de triste foi necessário pra mim, pude refletir sobre cada cena, o reli 5 vezes de tanto que reverberou em minha mente. Desde as frases pesadas da sinhá “Como era boa para um cocre”, “Quem é está peste chorando”, e a cena angustiante da tortura com o ovo, até as partes em que a Negrinha vê uma boneca pela primeira vez, pode brincar com ela, enfim, ser criança. Ao final, tenho certeza que uma frase me marcou, e muito!: “Varia a pele, a condição, mas alma de criança é a mesma – na princesinha e na mendiga”.

5.1 – Negrinha! Negrinha! Negrinha! – Ana Maria Gonçalves!

Em seu espelho, o conto é trazido para os tempos atuais e ficou excelente! Ana Maria ambienta a história em uma família de pais brancos que adotam uma menina negra. Com isso, a narrativa nos mostra todas as dificuldades enfrentadas pela família ao combater os preconceitos que negrinha sofre durante o seu crescimento, além de terem de aprender a lidar com situações delicadas.

6 – Pai Contra Mãe – Machado de Assis!
Mais uma vez temos “Machadão”! Neste conto, o nosso protagonista é o Cândido Neves, um pai de família que passa por dificuldades financeiras e decide ser caçador de escravos para prover o sustento de seu lar. Para isso, ele não possui dilema moral nenhum, os escravos “fujões” são tratados como bicho e caçados com “Sangue nos Olhos”, nem sequer mulheres grávidas escapam das mãos de Cândido. O que fica nítido para reflexão é que a bola de pensar sobre como o ser humano é tratado cai no nosso peito para reverberar e tirar nossas conclusões.

6.1 – Pipa Sande – Paulo Lins!
O espelho desse conto talvez seja o mais “revolucionário”, Paulo Lins pegou apenas a essência da história, a escravidão, e criou algo diferente e interessante. Neste narrativa nos é apresentado Pipa Sande, um vendedor de escravos que trabalha no mar, negocia, persuade, mas que termina de maneira triste. Aqui, mais uma vez, temos o dilema das relações humanas pela cor de sua pele, como nós julgamos e julgamos, mas só percebemos o quão terrível é o julgamento alheio quando sentimos na própria pele.

7 – Marriage à La Mode – Katherine Mansfield!
Primeiramente, que conto incrível! Não conhecia a autora, mas já a admiro! Aqui nós temos um casal que vive um casamento superficial, o marido, feliz com o seu trabalho, filhos e a vida. Por conseguinte, tem fé que a esposa também está sendo feliz, todavia, quando lemos “Mas a coisa estúpida, o mais absolutamente extraordinário era que ele não tinha a menor ideia de que Isabel não era tão feliz quanto ele” começamos a perceber que ela era apenas uma atriz triste e infeliz em seu papel de esposa. Ainda há uma carta ao final que é impactante. Gostaria de contar mais, mas não quero estragar a história. Leia!

7.1 – A Rainha das Fadas – Ivana Arruda Leite!
A começar pelo título, que é ótimo! Ivana Arruda traz a história para a atualidade e é contada por Moira Morrison, uma pessoa que possui uma visão externa do relacionamento e influencia Isabel. Há até certo interesse afetivo de Moira por Isabel, que a leva em festas onde “Na cozinha, escritores se debruçavam sobre as duas bandejas, de canapés e cocaína, com a mesma voracidade”. Aqui a mulher que é “recatada e dor lar” não existe. Há momentos que Wilhiam, o marido, recebe sua esposa totalmente bêbada e sem norte em casa, há discussões, brigas e tudo o que pode envolver um relacionamento debilitado. Ao cabo, o que Isabel talvez queria era apenas o melhor dos dois mundos, ou, simplesmente, ser feliz.

8 – Um Homem Célebre – Machado de Assis!
Machado marcando presença mais uma vez nesse célebre conto! (desculpa pelo trocadilho). Pestana, o personagem principal, é um músico em busca de ascensão e almeja ser igual os seus ídolos, mas por mais que tente ele acaba sempre nas suas mesmas polcas. A grande questão que permeia o livro é o dualismo vivido pelo Pestana entre idealidade e realidade, tema este que até hoje nos causa angustia em cada novo projeto que fica aquém do esperado.

8.1 – Um Homem Célebre – José Luis Peixoto!
Neste conto, José Luiz Peixoto mantém o título do original e inverte o papel do protagonista. Logo, Pestana aqui ao invés de músico é um escritor, e além do mais, é reconhecido pela sua alta literatura produzida. Todavia, é notável a sua altivez e arrogância: “Os textos eram clássicos instantâneos, não fazia qualquer sentido que o convidassem para escrever sobre os outros. Os outros que escrevessem sobre ele”.

9 – O Colar – Guy de Maupassant!
É bem provável que você tenda a achar esse conto o mais “bobinho” da coletânea, pois apresenta um final “esperado” e que tem um tom infanto juvenil quando apresenta a moral da história de maneira um pouco explícita. Pois bem, a narrativa conta a história de um casal comum de classe média que aparenta ser feliz, mas a mulher da relação parece incomodada em não participar das festas da alta sociedade e não possuir roupa adequada para tais comemorações. Podemos notar a pressão que o sexo feminino sempre sofreu em “ter” que estar em todos os momentos lindas, belas e exultantes: “Ela foi singela, não podendo ser paramentada, mas infeliz como alguém que desce de nível social, pois as mulheres não tem casta nem raça, são sua beleza, sua graça e charme que lhes servem de origem e família”. Logo, ao decorrer das história o casal acaba subtraindo uma grande dívida para que possam apenas viver de aparência, superficialidade e todas as frivolidades da alta sociedade.

9.1 – Um Simples Engano – Maria Valéria Pezende!
Maria Valéria optou por manter a essência da história original e trazê-la para atualidade. Aqui o que de fato fica mais exacerbado é a petulância, no bom português, do “pobre metido a besta”, como podemos notar em: “Nem o nome aceitava. Ora, que ideia, o nome da bisavó! Nome de velha. – Adotou o apelido Máti. Na escola não tinha amigaas ,a penas imitadoras sem sucesso. – Invejosas!”. Gostaria de destacar o que não disse sobre o texto original, pois apesar de parecer chavão, superficial e etc, sempre em uma análise de algum texto precisamos nos ater ao período histórico e tentar pensar com empatia para entendermos o porquê do escritor ter dito isso. Por conseguinte, tanto Maupassant e Maria Valéria trazem esses temas de superficialidade, frivolidade e fugacidade de maneira essencial para a realidade vivida. Pelo menos na minha opinião, claro!

10 – Depois do Baile – Liev Tolstói!
É claro que temos um russo na coletânea! A história desse conto é uma narrativa de um homem, basicamente, contando por que desistiu de seu grande amor. Tudo começa em um baile, onde ele se encanta por uma moça, eles dançam a noite inteira, ele conhece seu pai, um militar grandemente condecorado e respeitado, e tudo tendia a ser belo aos seus olhos. No entanto, a história caminha para um tom misterioso, sombrio e, claro, Tolstói não perde a oportunidade de dar uma alfinetada na sociedade e ao regime militar russo.

10.1 – O herói da Sombra – Cristovão Tezza!
Tezza também optou por trazer a história para a atualidade e manter a história. Porém, a personagem principal aqui é uma mulher que conhece um rapaz trabalhador de uma oficina de automóveis. Certo momento ela também conhece o pai do pretendente, um militar aposentado e preconceituoso que fez parte de muitas repressões e humilhações, mas o pior de tudo é que o militar tem orgulho de toda essa história. Vale salientar também que notaremos o tom áspero com o cenário político atual. Não deixe de ler!

Espero ter, no mínimo, despertado a sua curiosidade para ler algum desses contos. Obrigado por estar aqui. Grande abraço!

Situando-se:

Além de serem um casal de escritores, Helena Terra e Luiz Ruffato são os organizadores desse projeto auspicioso da TAG! Atualmente, são escritores em ascensão e que possuem livros bem sucedidos pela crítica como A Condição Indestrutível de ter sido (2013) e Eles Eram Muitos Cavalos (2001).

Gostou do conteúdo?

Comente, será um imenso prazer conversar com você!

Quer que mais pessoas saibam do assunto? Compartilhe, pois me ajudará muito!

Quer me indicar livros, elogiar, sugerir ou criticar? Envie um e-mail para contato@vidaliteraria.net

Siga-me também nas redes sociais para ficar por dentro das novidades.