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Caindo de paraquedas:

A história é de um garoto chamado Sérgio em um período que , dos 11 aos 13 anos, estudou no internato que dá nome à obra, o Ateneu. Nele o menino que outrora estava acostumado com o conforto do lar, vive uma realidade completamente díspar. O livro vem sendo estudado por muitos críticos há anos e tem inserido no enredo, com propriedade, assuntos como religião e política. É com este cenário e uma linguagem ímpar que Raul Pompeia se consagra como um grande escritor nacional.

Resenha:

Falar do Ateneu é prazeroso e alegrador, pensar que este livro incrivel foi escrito em apenas três meses, de janeiro a março de 1888, é de se espantar, não apenas isso, a linguagem utilizada pelo Raul Pompeia é de longe uma das rebuscadas e belas que eu já li em autores nacionais, sinceramente, de parar e pensar que não chegaremos a este nível de escrita nunca. A história é no Rio de Janeiro, o Brasil está deixando de ser império e passando a ser república, o nosso protagonista é o garoto Sérgio, que dos 11 aos 13 anos vive nesse internato apenas de meninos e nos narra, em primeira pessoa, a sua passagem pela escola que formava os filhos das elites do Brasil do Segundo Império.

O Ateneu é um livro que contará evolução do nosso protagonista durante a história, o Sérgio que entra no internato é diferente daquele que sai, tudo que ele passa ao transcorrer da narrativa é tão intenso que a metamorfose é inevitável, a primeira frase já nos mostra o tom que permeará em todo o restante do livro. “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” Antes de entrar de fato no internato, Sérgio frequentava um escola familiar, e, claramente, não era lá um bom aluno. “Entrava às nove horas, timidamente, ignorando as lições com a maior regularidade, e bocejava até às duas, torcendo-me de insipidez sobre os carcomidos bancos que o colégio comprara, de pinho e usados, lustrosos do contato da malandragem de não sei quantas gerações de pequenos.” Ele conhece o internato em uma festa de encerramento de trabalhos no final do ano letivo, quando seu pai lhe da á notícia de que ele vai para o grande colégio da época, conter a euforia foi tarera difícil. “Mas um movimento animou-me, primeiro estímulo sério da vaidade: distanciava-me da comunhão da família, como um homem! ia por minha conta empenhar a luta dos merecimentos; e a confiança nas próprias forças sobrava. Quando me disseram que estava a escolha feita da casa de educação que me devia receber, a notícia veio achar-me em armas para a conquista audaciosa do desconhecido.”

Imagine um local hostil, com pessoas ácidas que sempre queriam algo em troca para te ajudar, com autoritarismo imperante e uma notável altivez, pois bem, esse era o ateneu, que inclusive pregava a didascalolatria (adoração ao professor) e contava com Aristaco, um diretor extremamente rigoroso, que não perdoava, de jeito nenhum, a imoralidade.

Aristarco, todo era um anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei — o autocrata excelso dos silabários; a pausa hierática do andar deixava sentir o esforço, a cada passo, que ele fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso do ensino publico; o olhar fulgurante, sob a crispação áspera dos supercílios de monstro japonês, penetrando de luz as almas circunstantes — era a educação da inteligência; o queixo, severamente escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura das consciências limpas — era a educação moral.

Tudo isso assustava o pobre Sérgio, que estava acostumado com o aconhego placentário e as veleidades que um lar de filho único proporciona, por essas e outras que logo no seu primeiro dia nem sequer queria ir ao recreio para conhecer os alunos do internato.

“Subi ao salão azul, dormitório dos médios, onde estava a minha cama; mudei de roupa, levei a farda ao número 54 do depósito geral, meu número. Não tive coragem de afrontar o recreio”.

Para piorar as coisas na sua primeira aula, o professor o interroga sobre um assunto e olhe o que aconteceu:

“envolveu-me a escuridão dos desmaios, vergonha eterna! liquidando-se a última energia… pela melhor
das maneiras piores de liquidar-se uma energia.”

Esse desmaio logo no primeiro dia de aula é um nítido reforço de que o jovem que acabara de adentrar nesse auspicioso recinto transpirava fragilidade. Podemos analisar de uma outra maneira também, para quem leu o livro sabe que descrições extremamente detalhas são feitas o tempo todo, e o Sérgio faz uma em longa de todos os seus colegas de sala que ele taxa de “dignos de nota”, em contrapartida, aos outros que não eram merecedores de nota: “O resto, uma cambadinha indistinta, adormentados nos últimos bancos, confundidos na sombra preguiçosa do fundo da sala de aula”. No fundo, será que o medo de ser visto também como o “resto” pelos outros fez tamanha pressão que o fez desmaiar? Enfim, já deu para perceber que o recém chegado Sérgio com os seus cachos cheios e belos teria que se fazer forte para sobreviver ao internato. No entanto, é perceptível que ele nem sempre consiguirá e passará a ter, em vários momentos, os indesejáveis protetores!

“Depois que sacudi fora a tranca dos ideais ingênuos, sentia-me vazio de animo; nunca percebi tanto a espiritualidade imponderável da alma: o vácuo habitava-me dentro. Premia-me a força das coisas; senti-me acovardado. Perdeu-se a lição viril de Rebelo: prescindir de protetores. Eu desejei um protetor, alguém que me valesse, naquele meio hostil e desconhecido, e um valimento direto mais forte do que palavras.”

Tomar banho é algo que precisamos fazer todos os dias (ou pelo menos deveríamos), o que chama a atenção é como os alunos tomavam banho, praticamente um banho romano, todos juntos em um tanque quase que improvisado nos fundos.

“Natação chamava-se o banheiro, construído num terreno das dependências do Ateneu, vasta toalha d’água ao rés da terra, trinta metros sobre cinco, com escoamento para o Rio Comprido, e alimentada por grandes torneiras de chave livre.”

A homosexualidade parece ser tema também abarcado pelo Pompeia, lembra do banho? no seu primeiro banho Sérgio quase se afoga, isso não acontece por que um rapaz chamado Sanches o salva, mal sabia ele o que estava por vir.

“Ia afogar-se!” disse ele, amparando-me a cabeça enquanto me desempastava os cabelos de cima dos olhos. Meio aturdido ainda, contei-lhe efusivamente o que me haviam feito. “Perversos!” observou-me o colega com pena, e atribuiu a brutalidade a qualquer peste que fugira no atropelo dos nadadores, desvelando-seem solicitudes por tranqüilizar-me. Tive depois motivo, para crer que o perverso e a peste fora-o ele próprio, na intenção de fazer valer um bom serviço.

No internato, como já mencionado, todos queriam algo em troca, Sanches não era diferente, ao aprofundar a relação com Sérgio, a verdadeira face do “bondoso” foi surgindo.

Contudo Sanches, como os mal-intencionados, fugia dos lugares concorridos. Gostava de vaguear comigo, à noite, antes da ceia, cruzando cem vezes o pátio de pouca luz, cingindo-me nervosamente, estreitamente até levantar-me do chão. Eu aturava, imaginando em resignado silêncio o sexo artificial da fraqueza que definira Rebelo.

Perceba como não fica explícito, no entanto, tudo indica que Raul Pompeia está tratando da homosexualidade, neste momento Sérgio refuta Sanches e não cede as suas intimidações e “investidas”…

Só a voz, o simples som covarde da voz, rastejante, colante, como se fosse cada sílaba uma lesma, horripilou-me, feito o contato de um suplício imundo. Fingi não ter ouvido; mas houve intimamente a explosão de todo o meu asco por semelhante indivíduo e muito calmo, desviando apenas a vista, pretextei a falta de um lenço, que me endefluxara a friagem e… fui buscá-lo.

Depois fica extremamente claro que Sanches queria algo com Sérgio, e, provavélmente sexualmente, pois após esta negativa ele passa a perseguir o nosso garoto.

Sanches, rancoroso, perseguia-me como um demônio. Dizia coisas imundas. “Deixa estar, jurava entre dentes, que ainda hei de tirar-te a vergonha.” Na qualidade de vigilante levava-me brutalmente à espada. Eu tinha as pernas roxas dos golpes; as canelas me incharam.

Toda essa turbulência no internato faziam pesamentos como esse passar pela mente do Sérgio

E me achei de novo sozinho no Ateneu; sozinho mais do que nunca. Com os astros apenas do meu compêndio, panorama da noite consoladora.

Juntou a fragilidade sentimemtal do menino com um rapaz chamado Bento Alves e…

Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer; porque me respeitava, quase tímido, como se não tivesse animo de ser amigo. Para me fitar esperava que eu tirasse dele os meus olhos. A primeira vez que me deu um presente, gracioso livro de educação, retirou-se corado, como quem foge. Aquela timidez, em vez de alertar, enternecia-me, a mim que aliás devia estar prevenido contra escaldos de água fria. interessante é que vago elemento de materialidade havia nesta afeição de criança, tal qual se nota em amor, prazer do contato fortuito, de um aperto de mãos, da emanação da roupa, como se absorvêssemos um pouco do objeto simpático.

E aí? Sérgio era ou não homosexual? Fica no ar esta dúvida!

A evolução do personagem pode ser notada em dois momentos de morte, a primeira parece que ele quer se mostrar forte, que ainda está se conhecendo, quer ser adulto e almeja ver e presenciar até a morte e o cadáver.

Desde muito, andava querendo ver um cadáver, espetáculo real, de mãos contraídas, revirados beiços. As cartas iconográficas de parede deixavam-me impassível, com as estampas teóricas de cérebros a descoberto, globos oculares exorbitados, ventres golpeados em abas, mostrando vísceras, figuras humanas de pé, descansando a um quadril, movendo a supinação num jeito de complacência passiva, esfolados para que lhes víssemos as veias, modelos vivos da ciência em pose de suplício, constância de brâmane, como à espera que houvéssemos aprendido de cor a circunvolução do sangue, para vestir de novo a pele e os músculos deslocados. Não me bastava.

Se na primeira o jovem Sérgio se mostrava frio e até sombrio, na segunda se mostra sensível e mais melancólico.

Perguntei ao Franco como passava. Ele agitou devagar as pálpebras e sorriu-se. Nunca lhe conheci tão belo sorriso, sorriso de criança à morte. Oito horas da noite. O gás atenuado produzia eflúvios contristadores de claridade. Retirei-me sem aprofundar a vista pelos outros dormitórios, em cujas vidraças espelhantes devia passar sucessivamente a minha sombra. Procurei o diretor e comuniquei-lhe os meus terrores. No dia seguinte, um domingo alegre, Franco estava morto.

Você, estudante, em algum momento da sua vida já tentou colar, agora imagine se seu amigo tenta te pedir cola falando assim:“Valha-me que estou perdido, não atino com a ordem direta!” até compreendermos a frase a prova já terminou kk Raul Pompeia é demais!

Ao cabo, nós precisamos sair da nossa zona de conforto e encarar este desafio que é ler o Ateneu, uma leitura que pode te requerer um dicionario ou constantes pesquisas no google para saber o significado de algumas palavras. No entanto, vale, e muito, o esforço para ler esta obra monumental, pois o ateneu é o ambiente onde tem o Aristaco, o diretor, que por um lado pune os alunos na frente de todo mundo, que não tolera a imoralidade, que trata os alunos de formas distinas conforme sua capacidade financeira, mas por outro lado leva os alunos a passeios e piqueniques, e até para almoçar em sua casa, um antagônismo único! O ateneu é o lugar onde há vendas ilegais de cigarros, brigas entre alunos, vinganças e cacos de vidros jogados no tanque para que os alunos se cortem, mas tem também recitais e musicais lindíssimos, discursos intelectuais conduzidos com primor pelo jovem nearco, enfim, quer literatura nacional de qualidade? o ateneu é um grande nome!

E não se diga que é um viveiro de maus germens, seminário nefasto de maus princípios,
que hão de arborescer depois. Não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete.

Pompeia, Raul.

Situando-se

Nascido em Angra dos Reis, em 1863, Raum Pompeia mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro e, aos dez anos de idade, ingressou como interno no colégio Abílio, dirigido pelo barão de Macaúbas. Desde cedo revelou inclinação para o desenho e, nas páginas do jornalzinho O Archote, criticava bedéis e professores com caricaturas e pequenos artigos. Estreou na literatura muito cedo, aos dezessete anos, com um romance Uma tragédia no Amazonas, que ele chamou de “ensaio literário” – obra imatura, de extração romântica, sem a força do que viria a escrever depois. Sua grande obra, sem dúvda, foi o ateneu, que o consagrou, o colocou entre os grandes da literatura nacional. O triste é que, aos 32 anos de idade, suicidou-se com um tiro no peito.

Além das Páginas

Se você não quer ouvir um baita de um spoiler, não prossiga!

A edição da Zahar traz uma apresentação escrita pelo Ivan Marques que está sensacional! Nos é apresentada várias ideias e estudos de alguns críticos literários, confira um trecho:

De acordo com Alfredo Bosi, “O gozo da felicidade, que traz o adolescente de volta ao regaço materno, exige a destruição daquele outro mundo, feito para a criança tornar-se adulto”. É por essa razão que, na cena final, não só as parades, mas os próprios ensinamentos do colégio (globos, quadros, mapas) serão voluptuosamente devorados pelo fogo. Longe de ser uma “crônica de saudades” do tempo, conforme a leitura de Lúcia Miguel Pereira, estaria na “saudade” que os desajustados carregam pela existência em fora do “conchego placentário”. Se o colégio arde em chamas, a vitória foi, portanto, não do adulto, mas da criança, para quem a experiência do internato não teria produzido, então, nenhuma substancial modificação.

Vamos ler um fragmento do último capítulo? Dê o play e leia junto comigo =)

Lá estava; em roda amontoavam-se figuras torradas de geometria, aparelhos de cosmografia partidos, enormes cartas murais em tiras, queimadas, enxovalhadas, vísceras dispersas das lições de anatomia, gravuras quebradas da história santa em quadros, cronologias da história pátria, ilustrações zoológicas, preceitos morais pelo ladrilho, como ensinamentos perdidos, esferas terrestres contundidas, esferas celestes rachadas; borra, chamusco por cima de tudo: despojos negros da vida, da história, da crença tradicional, da vegetação de outro tempo, lascas de continentes calcinados, planetas exorbitados de uma astronomia morta, sóis de ouro destronados e incinerados…
Ele, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra. Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo — o funeral para sempre das horas.

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