Olá, leitores!

Hoje, vamos ser mesquinhos e esnobes!

Iniciando o projeto dos 100 LIVROS ESSENCIAIS DA LITERATURA NACIONAL DA REVISTA BRAVO,apresento-lhes Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Caindo de Paraquedas:

A narrativa conta a vida de Brás Cubas, garoto que desde cedo já mostrara, com seu gênio, o que estaria por vir. Cresce no período imperial, de família rica e possui uma irmã chamada Sabina. Vive alguns relacionamentos, tenta uma carreira política e toda essa história é contada por um defunto (Isso não é spoiler).


Nota: A resenha abaixo pode conter spoilers. Não estrague sua experiência, sugiro que leia o livro antes e posteriormente venha conversar um pouco comigo.

Resenha:

Ao verme
Que
Primeiro roeu as frias carnes
Do meu cadáver
Dedico
Como saudosa lembrança
Estas
Memórias Póstumas

Até mesmo para quem não leu o livro, a dedicatória supramencionada é, além de notável, muito conhecida. E de cara nós já nos deparamos com algo que permeará todo o livro, o autor/narrador, sim; é um morto. Uma das coisas incríveis é que nós aceitamos facilmente a ideia de que a história está sendo contada por alguém que já não está mais entre nós, ou como ele mesmo diz “Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método, a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor”. E esta peculiar situação concede ao defunto uma liberdade de falar praticamente sem restrição ou filtro, o que nos dá momentos, em várias partes do livro, de gozações e zombarias. Porém, nós; com nosso instinto tácito de querer refutar imediatamente o que nos atinge, não possuímos o direito de fazê-lo, pois logo antes de iniciar a história de fato, muitos avisos nos são dados, como: “Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio” , ou então: “Veja-a e não está daí a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias. Lá iremos. Creio que prefere anedota à reflexão, como os outros leitores, seus confrades, e acho que faz muito bem”. Genial!Genial pelo fato de que nós rimos até percebemos ou termos aquele momento de “estalo”, que é perceber que estamos rindo de nós mesmos, nós somos o motivo da galhofa.

Em todo o livro precisamos ter a consciência de que são dois personagens Brás Cubas, o narrador e aquele que é narrado por ele. Sendo assim, o Brás Cubas narrado é uma pessoa sem escrúpulos, ridícula, medíocre, que tem a pachorra de “esfregar” na nossa cara que nunca precisou trabalhar na vida: “Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto”. Para mim, em todo o livro, Brás Cubas demonstra ser uma pessoa totalmente egocêntrica. Em certo momento do livro, em Fase Brilhante CLII, ele nos conta que se filiou a Ordem Terceira, uma associação de leigos católicos ligados às tradicionais ordens religiosas, e que lá fez serviços aos pobres e aos enfermos, mas, indubitavelmente, não convence. E o emplasto Brás Cubas? Hilário, principalmente quando ele diz: “Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influi principalmente foi o gosto de ver impresso nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas de remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas”. Sem dúvida, Brás Cubas não se cansava de alimentar o seu narciso interior que clamava sem cessar.

Não posso deixar de fora as aventuras amorosas do nosso singelo Brás Cubas. “Tinha dezessete anos; pungia-me um buçozinho que eu forcejava por trazer a bigode”. Sua primeira aventurança se dá com Marcela, que, possivelmente era uma prostituta, com a qual ele gastava toda a sua grana, gastando tanto, que, seu pai, já indignado, o manda estudar na Europa forçadamente. Confesso que ri bastante ao ler: “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos”. A altivez de Brás Cubas não parava. Então ele se relaciona rapidamente com outra pessoa. Eugênia, filha de D. Eusébia, ele a admira, acha-a nova, bonita. “Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa!”. A passagem só nos reforça o quão vil eram os pensamentos do rapaz, conforme o livro se desenrolava mais Brás Cubas se afundava no charco da mediocridade, da pequenez e indignidade, pois, para ele, é inadmissível que uma moça tão bela seja coxa de nascença. Isto é tão claro, que, a própria Eugênia percebe isso.

“- Adeus – suspirou ela estendendo-me a mão com simplicidade -; faz bem. – e como eu nada dissesse, continuou: – faz bem em fugir ao ridículo de casar comigo.”

No entanto, é com Virgília que nosso algoz aventureiro vive as maiores peripécias de um relacionamento. Aqui vale ressaltar algo importante, deparamo-nos ao transcorrer da história, sem dúvida, com o clichê de “o proibido é mais gostoso”. Pois seu pai (também chamado Brás Cubas), sua irmã Sabina e seu cunhado Cotrim o incentivam a casar. Seu pai então o apresenta Virgília, até então solteira, e ele a rejeita veementemente. Porém, basta que a donzela se case com o Lobo Neves que o amor chega fulminante e arrasador ao coração de Cubas. Ele ainda tem um quase relacionamento com D. Eulália (Nhâ-loló), que morre por causa da febre amarela, acabando também com um possível casamento. Ao cabo, concluímos que Brás Cubas, por mais que tenha dito, não amou ninguém a não ser a si mesmo, ao seu ego, seu narciso, sua altivez social e seu orgulho, alimentando página por página, a alegria de se sentir superior. Há também uma narrativa política na vida de Cubas. Todavia, é tão triste e enfadonha que nem o próprio personagem valoriza a efêmera e torpe carreira.

Por fim, gostaria de relatar aqui o personagem icônico. Você, meu amigo, sabe de quem estou falando. Quincas Borba, o mendigo, filósofo e doido. Talvez seja apenas comigo, mas me diverti irrefreavelmente com o Borba. Desde a sua aparição como mendigo e o roubo do relógio, passando pela sua volta, agora bem postado e vestido, à loucura dos últimos dias com a sua teoria do humanitismo, que inclusive possui até dança. Sério, é incrível.


Por conseguinte, Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma história de um homem podre, mas com uma escrita sublime, Machado de Assis merece todo o reconhecimento que tem, pois consegue nos passar uma ficção de altíssima qualidade. Seja você vestibulando ou amante da literatura, a leitura deste livro é para mim, mais do que recomendada, chegando ao nível de ser necessária. Necessária para que possamos nos conscientizar que a nossa literatura é rica, produtiva e incrível. Necessária para enriquecermos nosso conhecimento e transpassar nossa visão, muitas vezes, limitada.

Bônus

O final do livro, mais precisamente, o último capítulo, é sensacional. Sendo assim, decidi lê-lo e disponibilizá-lo para que você acompanhe, ao menos um pouco, a leitura junto comigo. Caso não tenha o seu exemplar perto de ti ou esteja com preguiça de pegá-lo, segue abaixo também transcrição do último capítulo. Dê o PLAY e me acompanhe!

Das Negativas

Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na
primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas,
que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me
darias o primeiro lugar entre os homens, acima da ciência e da riqueza, porque
eras a genuína e direta inspiração do céu.

O acaso determinou o contrário; e ai vos ficais eternamente hipocondríacos.
Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto,
não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado
dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu
rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência do
Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que
não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que sai quite com a vida. E
imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com
um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: – Não
tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

Além das páginas:

1 – É de conhecimento de todos que Brás Cubas é rico. Sendo assim, na época em que é narrada a história, sua família possuía vários escravos. No entanto, alguns conseguiam a sua carta de alforria. Certa vez Brás Cubas encontra-se com Prudêncio, um antigo escravo, agora alforriado. E, Advinha o que ele está fazendo? Batendo em um fugitivo, pois se tonara um dono de escravo. Reflita!

2 – Brás Cubas encontra-se com Quincas Borba pela primeira vez. Quando ele ainda estava com as indumentárias desgastadas, e por fim lhe dá cinco mil réis e lhe diz:

– Pois está em suas mãos ver outras muitas – disse eu.
– Sim? – acudiu ele, dando um bote para mim.
– Trabalhando – concluí eu.

Ou seja, amigos, aquele que proferiu as frases acima replicadas, no último capítulo chamado Negativas dirá a sentença já mencionada anteriormente:

“Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto”. Hipocrisia? Conhece? Reflita!

O filme:

Há sempre o comentário que permeia entre os leitores fervorosos sobre filmes baseados em livros: “o livro é bem melhor que o filme” E eu sou desses também! No entanto, o filme, que conta no elenco Petrônio Gontijo e Reginaldo Faria como Brás Cubas, Stepan Nercessian, Otávio Muller, entre outros, é muito divertido, a galhofa é muito bem transmitida e em minha opinião, a melhor interpretação fica por conta de Marcos Caruso como Quincas Borba e sua dancinha do humanitismo! Enfim, talvez não seja o filme pra ver num domingão reunido com a família, mas mesmo assim é um bom filme e eu recomendo.

Situando-se

Memórias Póstumas é um livro escrito por Machado de Assis, escritor que foi e continua, por muitas pessoas, sendo aclamado. Nascido em 21 de junho de 1839, Joaquim Maria Machado de Assis, foi da pobreza e gagueira ao apogeu do reconhecimento de muitos como o maior nome da literatura nacional. Teve uma vida pública intensa, foi o fundador da Academia Brasileira de Letras e peça fundamental para o Realismo no Brasil. Ao cabo, em 1908, morre aos 69 anos, deixando um legado de aproximadamente duzentos contos, nove romances e peças teatrais, cinco coletâneas de poemas e sonetos e incontáveis crônicas. Acho que tinha talento.

Gostou do conteúdo?

Comente, será um imenso prazer conversar com você!

Quer que mais pessoas saibam do assunto? Compartilhe, pois me ajudará muito!

Quer me indicar livros, elogiar, sugerir ou criticar? Envie um e-mail para contato@vidaliteraria.net

Siga-me também nas redes sociais para ficar por dentro das novidades.